A mesa de negociação coletiva é um dos poucos espaços onde a história das relações de trabalho se revela de forma tão clara. Ali, frente a frente, estão representantes dos trabalhadores e do setor empresarial, não como adversários, mas como protagonistas de um processo que exige responsabilidade, maturidade e visão de futuro.
Foi justamente esse ambiente que nos permitiu refletir sobre a transformação da figura do patrão de ontem para o empresário de hoje.
Durante muitos anos, predominou uma cultura em que a relação de trabalho era marcada pela autoridade unilateral. O patrão decidia, o trabalhador obedecia. O diálogo era limitado, e as reivindicações dos empregados eram frequentemente vistas como desafios à autoridade ou ameaças ao funcionamento da empresa.
Naquele contexto, benefícios como férias remuneradas, décimo terceiro salário, licença-maternidade, descanso semanal remunerado e tantas outras conquistas enfrentaram forte resistência. A lógica era simples: qualquer ampliação de direitos era encarada como aumento de custos.
O Brasil mudou.
As empresas evoluíram, o mercado tornou-se mais competitivo, a legislação trabalhista amadureceu e a própria sociedade passou a compreender que trabalhadores valorizados contribuem para organizações mais eficientes e sustentáveis.
Hoje, o empresário moderno sabe que negociar não significa perder. Significa construir segurança jurídica, estabilidade nas relações de trabalho e um ambiente favorável ao crescimento do negócio.
Essa mudança ficou evidente na primeira mesa de negociação da Campanha Salarial 2026/2027.
Embora existam divergências importantes — especialmente quanto às cláusulas econômicas, ao piso salarial, ao trabalho aos domingos e feriados, ao quinquênio e ao banco de horas — o simples fato de esses temas estarem sendo debatidos demonstra que o diálogo institucional permanece vivo.
É natural que cada lado defenda seus interesses.
O sindicato busca a valorização do trabalho, melhores salários e melhores condições para os comerciários.
O setor empresarial procura preservar a competitividade das empresas e a sustentabilidade econômica dos seus negócios.
Nenhuma dessas posições é ilegítima.
O desafio consiste em transformar diferenças em consensos.
O empresário que compreende a negociação coletiva percebe que um trabalhador valorizado produz mais, permanece por mais tempo na empresa, reduz a rotatividade, melhora o atendimento ao cliente e fortalece a imagem do próprio empreendimento.
Da mesma forma, o sindicato responsável entende que uma empresa saudável gera empregos, movimenta a economia e cria oportunidades para a categoria.
É exatamente nesse ponto que a figura do antigo patrão dá lugar ao empresário contemporâneo.
O primeiro enxergava a negociação como um confronto.
O segundo entende que negociar é investir na longevidade das relações de trabalho.
Por isso, temas como piso salarial, banco de horas, quinquênio e trabalho aos domingos e feriados não podem ser analisados apenas sob a ótica do custo imediato. Eles devem ser avaliados considerando seus impactos sobre a produtividade, a motivação das equipes, a retenção de talentos e a qualidade dos serviços prestados.
As empresas que prosperam por décadas têm uma característica em comum: elas compreendem que seu maior patrimônio não está apenas no capital investido, nas instalações ou no estoque.
Seu maior patrimônio são as pessoas.
E pessoas precisam ser respeitadas, valorizadas e ouvidas.
É esse espírito que deve conduzir as próximas rodadas da Campanha Salarial 2026/2027.
Que trabalhadores e empresários continuem defendendo suas convicções com firmeza, mas também com equilíbrio, respeito e disposição para construir soluções.
Porque uma boa Convenção Coletiva não é aquela em que um lado vence e o outro perde.
É aquela em que ambos saem da mesa conscientes de que contribuíram para fortalecer o comércio, preservar empregos e valorizar o trabalho.
No fim das contas, a grande diferença entre o patrão de ontem e o empresário de hoje não está apenas na forma de administrar uma empresa. Está na capacidade de compreender que negociar não é ceder; é construir um futuro em que o crescimento do negócio caminhe lado a lado com a dignidade de quem trabalha.
SINTRACS SR – Trabalhando por direitos, respeito, valorização e por uma vida além do trabalho.


